Meu humor é como a chuva de São Paulo, mas eu ainda espero pelo arco íris

 Vem chovendo a semana inteira em São Paulo. Acho que combina com meu humor. Escuro, frio e triste, dependendo do ponto de vista pode representar recomeço. Limpeza. Pureza.  Mas nesse meu momento apenas escuro, frio e triste.

Consumida por sentimentos que eu odeio, perdi as contas de quantas vezes chorei essa semana e gostaria de ter pelo menos esse controle, mas, aparentemente eu não tenho controle de absolutamente nada. Como não tenho controle das pessoas que vou gostar para sempre ou das que eu vou ressentir até o momento que morrer. Como não tenho controle do que penso, sinto ou demonstro assim como não consigo controlar a chuva que caí forte do céu e destrói parte da cidade. Assim como sentimentos me destruíram por dias. Assim como vulnerabilidade e raiva me destruíram hoje. Assim como tristeza me destrói agora.

Há momentos em que todas as coisas e sentimentos que rejeito ficam em segundo plano, consigo lembrar da minha vida, das metas que tracei, do que gosto de fazer e do que isso pode me reservar, pensando de uma forma positiva. Consigo olhar para os meus cachorros e sentir em volta dessa casa vazia as únicas companhias boas que poderia encontrar. Consigo ter um pouco de paz ouvindo minha música e tapando minha dor com um sorvete de chocolate. Em momentos em que tudo de ruim fica em segundo plano, eu consigo ver a frente de toda a escuridão que me consumiu ferozmente como se tomasse banho de uma chuva fria e ficasse encharcada no meio da rua. Em momentos de clareza, eu aproveito a chuva.

Mas na maioria dos momentos, tudo é obscuro. Dos mínimos detalhes do que penso na minha mente, as coisas que me levam chorar, ao que a minha imaginação projeta e ao sentimento simples de exclusão.

O velho sentimento de não ser importante.


Odeio ele. Odeio ele de verdade. Odeio que tenham feito eu sentir ele e odeio que eu conheça ódio de uma forma tão íntima. Odeio mais que tudo que possa odiar nesse mundo, porque eu não fui projetada para sentir esse tipo de coisa. Não sou forte o suficiente, não sou resistente, não aguento. Eu sou a árvore que caí e perde vida quando a chuva forte caí e causa um caos pela cidade.  Sou aquilo que assusta as pessoas por ser frágil demais. Sou o que resta de um furacão.

Então ter um turbilhão de sentimentos negativos transbordando em mim durante dias foram as sensações mais horríveis que poderia sentir. Eu, que gosto tanto de ficar sozinha, tive momentos de clareza tão poucas vezes que quase não aproveitei, aquela que eu jurei que era a única que deveria importar, eu mesma.

Supliquei com tanta vontade dentro de mim para tudo ir embora e me deixar em paz. Supliquei tanto por paz. Por indiferença. Por nada. Por vazio. Por solidão, apenas. Quis tanto ficar sozinha. Ser sozinha. Não fazer parte de mais nada. Quis tudo isso, menos raiva.

Porque chove e chove e chove e toda a destruição que ela causa combina com meu humor. Sou um dilúvio cheio de sentimentos raivosos e feios. Olhei na cara da raiva de perto e vi que ela é feia. Olhei para ela e me assustei quando a enxerguei dentro de mim. Olhei para ele e acolhi sem querer.

Marquei meu coração para sempre. Marquei de um jeito tão permanente que sinto que sempre vou lembrar exatamente como me senti nesses últimos dias. A sensação de desagrado, com tristeza e rejeição. O sentimento de odiar tudo isso.

O medo de achar que nunca vai parar de sentir tudo isso. O medo de achar que nunca mais vai gostar das pessoas que deveria gostar, porque você simplesmente não gosta de pessoas que te permitem olhar no espelho e concluir que você não é importante, certo? Que seus sentimentos são desprezíveis e você é uma pessoa horrível no momento.

Chove, chove, chove e não para de chover em São Paulo. Janeiro é um mês de promessas e eu nem consegui sonhar. Só desejar, que tudo isso vá embora, que eu possa me encontrar de novo no meu quarto vermelho, escrevendo algo idiota sobre o meu dia ou assistindo a minha série favorita sem me preocupar se minha sensação de tranquilidade é momentânea e depois vou ser consumida por isso.

Espero que um dia pare de chover dentro de mim. Espero que meu humor para de combinar com a chuva destrutiva que acaba com o dia de outra pessoa. Espero que chuva, em algum outro momento seja significado de ressignificar a dor. Espero que pare de doer. E espero que eu fique forte. Depois de tudo isso aqui dentro, eu acho que mereço ficar forte. Ou talvez já tenha ficado, pois quebrei em milhões de pedaços, mas ainda estou aqui, aparentemente intacta.  

Eu vou olhar pela janela e vai parar de chover. E minhas metas, todas elas eu vou obter. E quando eu menos esperar, vai existir um arco íris no céu de São Paulo, e ele vai combinar com meu humor.

Ele vai ser tudo que eu sou.

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