Eu sou meu cuidado, eu sou meu apoio... e as vezes é cansativo demais

 Não há ninguém com quem eu possa contar. Pelo menos não há uma pessoa com que possa fazer as coisas serem mais fáceis para mim. Alguém que não vá reclamar de uma carona se precisar, ou que vai até uma farmácia para comprar um remédio se eu estiver com dor. Alguém que me faça me sentir confortável em contar todas as minhas lutas eternas. Alguém que possa estar ao meu lado apenas para me ouvir chorar.

Não há ninguém para contar e isso não é exatamente uma novidade. Não tenho uma vida vazia, sem nenhuma conexão, também sei que isso não é verdade. Consigo pensar em pessoas pontuais que tenho vontade de desabafar, consigo lembrar de relação que me fazem bem, que me acrescentam, que me ajudam, mas que por algum motivo específico, geralmente físico, concreto e por quilômetro, não está lá.

As pessoas próximas, ao meu redor, as que cresci, sempre deram um significado diferente de “ajuda”. Sempre foi um fardo, um sacrifício, uma luta absurda. Eu mesma cresci assim. Achando que era mais fácil apontar a direção óbvia, bufar e não dar resposta, reclamar, reclamar, reclamar e fazer a ajuda parecer um estorvo. Dentro de casa, isso é regra. É assim que se joga o jogo.

Fora de casa, ajuda sempre foi algo que fiz com prazer. Entre ajuda financeira, moral, sentimental, física, não havia restrição no que eu pudesse fazer para impactar alguém com minha existência. A minha essência era essa, só não conseguia aplicar no lugar que nunca me incentivou ser assim.

Um dia, surpreendentemente, recebi a mensagem de um amigo que dizia ser eu, logo eu, a pessoa mais carinhosa que ele já conheceu. Estranhei de cara. Mas era verdade. Eu era carinhosa. Com todos aqueles que me conheciam fora da minha órbita. Aos que viam de dentro, era difícil enxergar essa minha camada. Em um ambiente onde carinho sempre foi meio escondido, dito apenas nos momentos de conflito, nunca expressei esse meu lado muito bem. Talvez nunca expressei de nenhuma maneira. E fora dele, era óbvio, transbordava, se doava, como se precisasse sair de mim.

Por muito tempo durante minha vida, eu senti que a vida é isso. Ser sozinha e aproveitar a própria companhia. Porque sozinha as coisas são mais fáceis. Não tem rejeição para lidar quando você lida com a solidão. E a solidão pode ser uma amiga tão próxima e acolhedora se você simplesmente abraçar ela e não lutar contra.

Vi beleza nela. Vi charme e independência. Enxerguei poesia. Li os versos mais profundos da minha existência quando a encarava. Era pura, eu era pura. Livre e sozinha, da maneira mais bonita que um ser humano pode ser.


Nunca lutei contra ela porque sempre pareceu tão certo ser sozinha. Enquanto tinha pessoas ao redor do globo lutando constantemente consigo mesmo por não saber lidar com algo tão simples como estar só, era nesse momento que eu me encontrava em plenitude. Escolhia solidão e toda sua magnitude.

Fiz dela minha amiga, minha parceira querida. Uma escolha. Tem coisa mais bonita do que escolher alguma coisa?

Mas hoje eu me pergunto se realmente escolhi. Enxerguei essa beleza toda ou fui obrigada a desenhar? Porque não há ninguém para contar! Que escolha eu teria? Lutar contra a solidão, me jogando em qualquer relação ou fazer dela minha amiga? Uma amiga bonita, eu diria.

Se tivesse alguém para contar, eu gostaria tanto dela? Não sei, as vezes duvido muito, hoje mais do que nunca queria poder saber.

É poesia, é beleza, é liberdade... mas também é cansativo. Se não for eu, não me viro. Se eu não fizer, não acontece. Se eu não decidir, fica no limbo. Se eu não resolver, fica mal resolvido. Se eu não contar, sofro em silêncio. Se não lidar, fico me remoendo. Sozinha, sozinha, sozinha. Cansou tanto que nem percebi. Quando me dei conta, já estava exausta.

Arrependida de ter procurado por alguém. Não, não há ninguém! Ninguém que possa fazer a vida mais fácil. Admito, que trocaria a poesia, beleza e liberdade, pelo menos um pouco da parcela dos três, por uma companhia que as vezes salvasse meu dia.

Mas não tenho essa pessoa. Não há uma pessoa se quer por perto. Aquele que me salva as vezes, parece que falta um pouco de afeto, onde eu nem me sinto confortável para desmoronar quando já estou em cacos.

Preciso me recompor antes que achem que sou muito necessitada, mas hoje eu realmente me senti quebrada. De novo, sem ninguém para me ajudar a levantar e dizer “tranquila, estou aqui”. Ninguém está.

Não há uma companhia se quer para eu contar. Talvez agora eu ache triste, porque estou muito cansada. Queria pelo menos um dia, poder encontrar carinho em um gesto de ajuda que não pareça sacrifício. Para ter isso eu preciso gritar, pedir, chorar. Parece que mendigo por cuidado e apoio. Isso quando faço, porque na maioria das vezes eu sou meu cuidado, eu sou meu apoio.

Foi assim quando fui psicologicamente abusada no primeiro namoro. Eu fui meu cuidado. Eu fui meu apoio. Ou quando choro toda vez pela pressão sobre meu corpo. Eu sou meu cuidado. Eu sou meu apoio. Ou quando sinto que fracassei em algo que eu estou buscando. Eu me levanto. Também nas vezes que não sou convidada para viagens sensacionais. Eu me consolo em meus textos, eu seco minhas lágrimas e sigo. E nas vezes, quase óbvias, onde eu grito e esperneio. O cuidado até vem, mas dessa vez eu rejeito.

É incrível e ao mesmo tempo exaustivo.

E sem ninguém para contar.

Estou sozinha desde antes de poder imaginar o que isso poderia significar. E simplesmente não há ninguém para contar. Cem por cento contar. Apenas estar lá. Facilitar.

Essa pessoa não existe. Na verdade, até existe. E sou eu. Mas cansada desse jeito, o caminho só fica mais difícil e intenso. Nesse exato momento não estou facilitando para ninguém. Acho que até poderia esperar, torcer, dialogar, quem sabe em busca do cuidado e apoio de alguém.

Mas há exatamente ninguém.

Então eu preciso me recompor, desenhar de forma diferente essa dor, com beleza, cor e poesia. Fazer dela bonita de novo. Porque assim talvez me reencontre. Ou talvez fique mais cansada. Mas não há ninguém além de mim então necessito, mais do que nunca, ser minha mais segura morada.

Comentários